Se alguém ainda tem dúvida de que o Google é o maior termômetro emocional, social e econômico do planeta, basta olhar para o que esteve entre os assuntos mais buscados nos últimos dois anos. Não é só curiosidade — é comportamento coletivo em estado bruto.
Em 2024 e 2025, o mundo pesquisou obsessivamente por ChatGPT, IA generativa, Taylor Swift, Barbie, Oppenheimer, guerras, eleições, clima extremo, Pix, demissões, trabalho híbrido e, curiosamente, por coisas como “por que tudo está tão caro?”.
Não é aleatório. É um retrato honesto do nosso tempo.
Agora, respira fundo e pensa: essas mesmas pessoas estão dentro das empresas. São os mesmos líderes, analistas, gestores e times que de manhã pesquisam “como usar IA”, à tarde buscam “demissão em massa big techs” e à noite assistem Barbie ou Oppenheimer tentando entender se o mundo ainda faz sentido.
E é exatamente aí que começa a história que quase nenhuma organização percebe.
Nos últimos dois anos, enquanto o Google explodia com termos como “IA vai substituir empregos?”, “como usar ChatGPT no trabalho”, “segurança de dados” e “LGPD multa”, muitas empresas fizeram o movimento mais humano possível: saíram testando IA do jeito que dava. Um prompt aqui, uma automação ali, um robô no WhatsApp acolá. Tudo rápido, tudo empolgante, tudo… meio sem dono.
Ao mesmo tempo, o mundo buscava Barbie — um filme sobre identidade, propósito e o papel das pessoas em sistemas que não foram feitos para elas — e Oppenheimer, basicamente uma aula de que tecnologia sem governança dá problema. Se isso não é ironia histórica, eu não sei o que é.
O Google mostrou o recado. A gente só não quis ler.
Enquanto executivos pesquisavam “IA para produtividade”, também cresciam as buscas por “erro de IA”, “processo judicial algoritmo”, “deepfake”, “vazamento de dados”. Ou seja: o encantamento veio junto com o medo. E esse medo não é técnico — é organizacional.
O ponto é simples e desconfortável: as empresas estão vivendo a mesma ansiedade que o mundo vive fora delas. A diferença é que, internamente, isso vira planilha, projeto mal definido e decisão apressada.
E aqui entra a parte que quase ninguém conecta.
Governar IA dentro de corporações não é sobre frear inovação. É sobre não repetir, em escala empresarial, o caos que o mundo digital viveu nos últimos anos. Redes sociais cresceram sem governança e hoje tentam consertar isso no meio do voo. As empresas ainda têm a chance de fazer diferente com IA.
Quando falamos de IA governada, estamos falando de responder perguntas que todo executivo já se fez — mesmo que em silêncio:
“Quem responde se isso der errado?”
“Esse dado pode estar aqui?”
“Essa decisão automática está alinhada à estratégia?”
“Isso gera valor real ou só slide bonito?”
Curiosamente, enquanto o Google mostrava o mundo buscando “propósito”, “burnout”, “quiet quitting” e “futuro do trabalho”, a resposta corporativa mais madura não estava em mais tecnologia, mas em mais clareza. Clareza de objetivo. Clareza de uso. Clareza de responsabilidade.
IA bem governada é quase o oposto do hype. Ela não faz barulho. Ela funciona. Ela reduz ruído, não cria mais um. Ela ajuda líderes a decidir melhor, não a terceirizar pensamento.
Talvez por isso, em meio a tantos trends barulhentos, o maior aprendizado seja silencioso:
não é sobre qual IA você usa — é sobre como sua organização pensa enquanto usa IA.
O Google já contou a história. Está tudo lá, nas buscas, nos medos, nas modas, nas obsessões coletivas. As empresas que entenderem esse sinal vão usar IA para criar vantagem real. As que não entenderem… provavelmente vão virar tendência por motivos que ninguém quer pesquisar depois.
E, convenhamos, melhor aparecer no Google como case de sucesso do que como “o que deu errado”.