A gente está começando a criar software rápido demais — e isso nem sempre é tão bom quanto parece.
Tem uma cena que está ficando cada vez mais comum dentro das empresas.
Alguém do time de operações, ou do financeiro, ou até do comercial, abre uma ferramenta de IA, descreve um problema do dia a dia — algo simples, chato, repetitivo — e em poucos minutos surge uma solução. Um script, uma automação, às vezes até um sistema inteiro funcionando.
Sem depender de TI.
Sem abrir chamado.
Sem esperar semanas.
Na hora, parece perfeito.
E de certa forma, é mesmo. As coisas começam a andar mais rápido. Problemas que antes ficavam parados começam a ser resolvidos quase que no impulso. Dá uma sensação de autonomia, de eficiência, de finalmente estar no controle.
Mas se você olhar com um pouco mais de calma, tem algo estranho acontecendo.
A empresa não está só resolvendo problemas.
Ela está começando a criar coisas… rápido demais.
E quase sempre, sem parar pra pensar no que vem depois.
É isso que estão chamando de vibe coding. Um nome bonito pra algo bem simples: você descreve o que quer, a IA escreve o código e pronto. A barreira técnica praticamente desaparece.
E sim, isso muda muita coisa.
Só que aqui está o ponto que quase ninguém está falando com clareza: isso não é só ganho de velocidade. É também perda de controle.
Porque vibe coding não resolve problema. Ele acelera a criação de soluções. E isso inclui soluções boas… e soluções ruins.
O que está acontecendo dentro das empresas não é uma transformação organizada. É uma espécie de explosão silenciosa. Cada área começa a criar suas próprias automações, seus próprios fluxos, seus próprios “mini sistemas”. Tudo funciona — até o momento em que alguém precisa integrar, escalar ou confiar de verdade naquilo.
E aí a conta começa a chegar.
Essas soluções nascem sem padrão, sem governança, sem preocupação com segurança ou com o futuro. Resolvem o agora e ignoram completamente o depois. É como montar uma cidade sem planejamento: no começo é rápido, depois vira um labirinto.
E o mais curioso é que o problema não desaparece. Ele só muda de lugar.
Antes, a dor era falta de desenvolvedor.
Agora, começa a surgir outro tipo de dor: excesso de coisas mal construídas.
Não falta mais solução.
Falta coerência.
E é aqui que eu discordo de uma leitura mais otimista que está ganhando força — a de que isso, no curto prazo, vai simplesmente ajudar as empresas a resolverem seus problemas operacionais.
Vai ajudar, sim.
Mas junto com isso, vai criar um problema maior — e mais difícil de resolver depois.
Porque cada automação criada sem critério, cada sistema improvisado, cada fluxo “que funciona por enquanto” vai se acumulando. E quando a empresa perceber, está operando em cima de uma base que ninguém entende direito, ninguém documentou e ninguém consegue evoluir com segurança.
É uma nova forma de dívida. Mais rápida. Mais invisível. E mais perigosa.
E é exatamente aqui que começa a parte mais interessante dessa história.
Porque, no meio desse caos, surge uma nova demanda.
Não por quem constrói.
Mas por quem organiza.
Durante muito tempo, o valor estava em quem sabia desenvolver. Em quem escrevia código, em quem entregava software. Agora isso começa a mudar. Porque o código, em si, está ficando barato. Rápido. Acessível.
O que não está ficando mais fácil é decidir o que deve — e o que não deve — ser feito.
E isso abre espaço para um outro tipo de empresa. Um outro tipo de serviço.
Não é fábrica de software.
Não é outsourcing.
Não é squad ágil.
É algo mais próximo do que dá pra chamar de uma consultoria cognitiva.
Gente que entra não pra sair construindo, mas pra organizar o pensamento antes da construção. Pra entender o que faz sentido automatizar, o que precisa ser estruturado e o que é melhor nem começar. Pra evitar que a facilidade de criar vire um incentivo pra criar qualquer coisa.
E aqui entra um ponto que muita gente ainda está subestimando: empresas menores, mais especializadas, com capacidade real de entender o negócio — aquelas consultorias boutique — tendem a ganhar muito espaço.
Não porque são mais rápidas.
Mas porque são mais criteriosas.
Enquanto todo mundo está acelerando, elas ajudam a frear na hora certa.
E isso passa a ter um valor enorme.
O paradoxo é simples: quanto mais fácil fica criar software, mais valioso se torna quem sabe o que não deve ser criado.
No meio disso tudo, o mercado também se reorganiza. O SaaS não desaparece, mas começa a ser pressionado nas soluções mais simples. Programadores não deixam de existir, mas passam a ter um papel muito mais próximo de arquitetura e curadoria do que de execução pura. E as empresas que não organizarem essa nova camada de criação vão acabar presas em um ambiente que elas mesmas aceleraram — só que sem controle.
No fim, o vibe coding não elimina a complexidade.
Ele redistribui.
A gente não está entrando em uma era onde tudo fica mais simples.
A gente está entrando em uma era onde tudo fica mais rápido — inclusive o erro.
E quem souber organizar isso antes de sair criando, vai capturar uma parte enorme desse novo mercado.
Quem não souber… vai passar os próximos anos tentando arrumar o que fez rápido demais.